Esquema para explicar a forma da relação, não uma medição. Os coeficientes de existência e de aplicação de código de conduta, citados no texto, são o que sustenta o formato.

Em 2011, três economistas coletaram os valores publicados nos sites das 500 maiores empresas de capital aberto dos Estados Unidos. Inovação aparecia em cerca de 80% delas. Integridade e respeito, em cerca de 70%. Depois testaram se algo daquilo tinha relação com desempenho.

O resultado, na formulação dos próprios autores: com uma exceção, encontra-se muito pouca evidência de que os valores anunciados se correlacionem com desempenho, nenhuma correlação detectável com lucratividade, nenhuma com valor de mercado, nenhuma com frequência de ações coletivas movidas contra a empresa.

No mesmo trabalho, uma variável diferente funciona. Não é o valor declarado: é a percepção do empregado de que as ações da gestão correspondem às palavras e de que a gestão é honesta. Um desvio-padrão a mais nessa medida está associado a 0,19 desvio-padrão a mais em valor de mercado.

O número que separa declaração de consequência

Se o valor declarado não prevê, o que prevê? A resposta mais limpa da literatura vem de uma meta-análise sobre comportamento antiético nas organizações, com 136 amostras e 43.914 pessoas. Ela separa duas coisas que as empresas tratam como uma só.

Código de conduta: existir e ser aplicado

A existência de um código de conduta quase não desestimula comportamento antiético; a aplicação do código tem efeito moderado. Ressalva de procedência: obtive esses dois coeficientes por meio de uma revisão técnica de terceiros, e não do artigo original, trate as magnitudes como ordem de grandeza confiável e os sinais com cautela.

É a diferença entre um documento e um mecanismo. E a distância entre 0,07 e 0,41 é, em termos práticos, tudo o que separa uma cultura escrita de uma cultura existente.

Vale notar quem responde por essa "aplicação". Não é o compliance: é a percepção coletiva de que, quando alguém atravessa a linha, algo acontece, e de que isso vale também para quem entrega resultado. Cultura, medida assim, é o conjunto de comportamentos que têm preço conhecido.

O que os próprios executivos já sabem

Num levantamento com 1.348 executivos americanos, 92% acreditam que melhorar a cultura aumentaria o valor da empresa e 84% dizem que a cultura da própria empresa precisa melhorar. Apenas 16% acham que ela está onde deveria estar. Mais da metade diz que abandonaria uma aquisição por incompatibilidade cultural.

Uso esse dado com um aviso, porque ele é o tipo de número que costuma ser usado errado: isso é crença declarada de executivo, não medida de desfecho. Não prova que cultura gere valor. Prova outra coisa, que basta para o argumento: quase todo mundo no topo já sabe que a distância entre a cultura declarada e a praticada existe, e é grande.

A primeira exceção aberta para quem entrega resultado é o momento em que o valor deixa de existir, e ela nunca é registrada em lugar nenhum.

A cultura não é o que está escrito na parede. É a lista dos comportamentos que têm preço conhecido, e a primeira exceção define o preço real.

Um teste feito no Brasil, com resultado incômodo

Existe um estudo brasileiro que replica a lógica do trabalho americano em terreno local. Pesquisadores analisaram os Formulários de Referência de 83 empresas do IBrX 100, extraindo o perfil cultural declarado a partir da própria linguagem dos documentos, e testaram contra desempenho.

O resultado: a cultura declarada como criativa e inovadora associou-se negativamente ao desempenho; a cultura de controle, positivamente; e as demais não foram significativas. É um estudo com fragilidades, extração por contagem de termos, amostra pequena, sem identificação causal ,, mas aponta na mesma direção do achado americano. Aquilo que a empresa declara sobre si mesma diz mais sobre o que ela gostaria de ser do que sobre o que ela é.

Onde essa tese tem limite

Metade da minha tese é sólida. A outra metade, não

A parte negativa, declarado não prevê, está fortemente sustentada, por fontes independentes e com preditor e desfecho medidos por instrumentos diferentes. A parte positiva, comportamento prevê, é mais frágil do que este texto sugere, porque quase ninguém observa comportamento. Toda a literatura mede percepção: por questionário ou por texto. A tese de que cultura é comportamento observável é hoje uma posição conceitual bem fundamentada, não um achado empírico. Digo isso porque um leitor informado diria por mim.

Os coeficientes de cultura desabam quando o desfecho é objetivo

Na meta-análise de referência sobre cultura e desempenho, a cultura de clã correlaciona 0,41 com inovação avaliada subjetivamente e 0,00 com lucro objetivo. Na atualização, com 148 estudos e 26.196 organizações, os quatro perfis culturais ficam todos entre 0,13 e 0,23 no critério financeiro, nenhum vence. Três quartos do efeito somem quando quem mede o resultado não é quem respondeu o questionário. A revisão de evidência mais rigorosa sobre o tema conclui que a ligação entre cultura e desempenho, se existe, é fraca demais para ser praticamente significativa, e que não é possível concluir nada sobre a eficácia de intervenções de mudança cultural.

Os instrumentos podem estar medindo outra coisa

Há crítica publicada sustentando que os instrumentos dominantes de cultura foram originalmente desenhados para medir eficácia organizacional, e não cultura, o que torna a relação com desempenho parcialmente circular. Uma revisão localizou dezenas de instrumentos com validação inadequada. É por isso que este artigo evita o vocabulário de tipologias culturais e fica em norma, sanção e consequência: é o único terreno em que os coeficientes sobrevivem.

Quem escolhe os comportamentos, e o que eu vendo

A objeção mais dura contra tudo o que escrevi acima é esta: se cultura é comportamento observável, alguém escolhe quais observar, e essa escolha não vem de dado nenhum, vem de quem manda. Uma vez escolhidos, viram meta; viram meta, viram teatro. Aceito a objeção e respondo com precisão: escolher quais comportamentos importam é decisão da liderança, não descoberta científica. A evidência não diz qual conteúdo é melhor, diz que, sem consequência, nenhum conteúdo funciona. É por isso que os quatro perfis culturais empatam no critério financeiro. Descartei, no caminho, a frase "cultura come estratégia no café da manhã", que não tem ocorrência em obra publicada de quem a assina; os números de desempenho de ações divulgados por listas pagas e autosselecionadas de melhores empregadores; e o "engajamento aumenta a lucratividade em 23%", que é diferença entre quartis de um índice proprietário cuja correlação verdadeira corrigida é 0,15, e cujo próprio relatório declara não tratar de causalidade. Presto serviço de cultura e governança, o que coincide com o escopo deste texto.

Como transformar isso em rotina

Cinco movimentos para tirar cultura da parede. Nenhum deles começa por reescrever os valores.

Cultura não se comunica. Ela se aplica, e o teste de que ela existe é sempre o mesmo: alguém pagou um preço por atravessar a linha, e todo mundo ficou sabendo.

Nos últimos doze meses, alguém na sua empresa perdeu alguma coisa por ter contrariado um valor declarado?

Fontes

  1. 01Guiso, Sapienza e Zingales. The Value of Corporate Culture, Journal of Financial Economics, 2015, 117(1), valores publicados nos sites das empresas do S&P 500 (coleta de 2011); nenhuma correlação detectável com lucratividade, valor de mercado ou frequência de ações coletivas. Medida de integridade percebida construída sobre 679 empresas, 1.367 observações empresa-ano e 410.521 empregados: +1 desvio-padrão associado a +0,19 desvio-padrão em valor de mercado. Amostras de origens distintas para preditor e desfecho.
  1. 01Kish-Gephart, Harrison e Treviño. Bad Apples, Bad Cases, and Bad Barrels: Meta-Analytic Evidence About Sources of Unethical Decisions at Work, Journal of Applied Psychology, 2010, 95(1), 136 amostras, 43.914 pessoas. Existência de código de conduta com efeito próximo de nulo; aplicação do código com efeito moderado. Coeficientes obtidos por revisão técnica de terceiros, não pelo artigo original.
  1. 01Hartnell, Ou e Kinicki. Organizational Culture and Organizational Effectiveness: A Meta-Analytic Investigation of the Competing Values Framework, Journal of Applied Psychology, 2011, 96(4), e Hartnell, Ou, Kinicki, Choi e Karam, atualização de 2019, 104(6), 148 estudos, 26.196 organizações, 556.945 informantes. Cultura de clã: 0,41 com inovação subjetiva e 0,00 com lucro objetivo; os quatro perfis entre 0,13 e 0,23 no critério financeiro.
  1. 01Graham, Grennan, Harvey e Rajgopal. Corporate Culture: Evidence from the Field, Journal of Financial Economics, 2022, 146(2), 1.348 executivos e 18 entrevistas. 92% creem que melhorar a cultura aumentaria o valor; 84% dizem que a própria precisa melhorar; 16% a consideram adequada. Crença declarada, não medida de desfecho.
  1. 01Sull e Sull. Culture 500, MIT Sloan Management Review, 531 empresas, cerca de 1,2 milhão de avaliações de empregados entre 2014 e 2019. Nenhuma correlação entre os valores enfatizados nas declarações públicas e a percepção dos empregados de que a empresa os pratica; quatro dos nove valores com correlação negativa. Amostra autosselecionada, dicionário de análise de linguagem proprietário.
  1. 01Sørensen. The Strength of Corporate Culture and the Reliability of Firm Performance, Administrative Science Quarterly, 2002, 47(1), 135 empresas. Cultura forte associada a desempenho mais consistente em ambiente estável; a vantagem desaparece em ambiente volátil.
  1. 01Boyce, Nieminen, Gillespie, Ryan e Denison. Which comes first, organizational culture or performance?, Journal of Organizational Behavior, 2015, 36(3), 95 concessionárias, quatro ondas entre 2000 e 2005, painel cruzado defasado. A cultura precede o desempenho; os coeficientes cruzados sobre vendas ficam em 0,07 e 0,11, precedência temporal estabelecida, magnitude modesta.
  1. 01Ilowski, Vieira, Musial e Lopes. Cultura organizacional e desempenho: evidências dos Formulários de Referência, Congresso USP de Controladoria e Contabilidade, 2019, 83 empresas do IBrX 100, perfil cultural extraído por contagem de radicais. Cultura criativa com coeficiente negativo e significativo; cultura de controle, positivo. Estudo com fragilidades declaradas de método.
  1. 01CIPD. Organisational culture and performance: an evidence review, 2022, síntese de evidência que classifica a qualidade dos estudos do campo como de moderada a baixa e conclui que a ligação entre cultura e desempenho, se existe, é fraca demais para ser praticamente significativa.